por Rüvieri


Entre o personagem histórico que mobilizou comunidades judaicas em nome de um ideal de fé e purificação, a partir da crença nos ensinamentos de um Deus, e um personagem fictício, não divino e secundário, que apenas se casou com uma mulher -- essa sim, líder de discípulos que espalhariam a Boa Nova pelo mundo --, há uma distância abismal. O homem citado acima nas duas histórias possui o mesmo nome: Jesus Cristo. Para os seguidores da primeira versão -- e eles não são poucos, atendem pelo nome de cristãos e representam boa parte da civilização do mundo --, ele era o filho de Deus, que veio ao mundo para perdoar os pecados humanos e preparar seu povo para o Juízo Final. Já os que conhecem o segundo relato sabem que se trata do personagem principal do polêmico livro do ex-professor ginasial norte-americano, Dan Brown.

"O Código Da Vinci", obra que trata da vida desse último Jesus, foi lançado há pouco mais de um ano nos Estados Unidos e há um mês no Brasil. De lá para cá, além de alcançar a surpreendente marca de 6 milhões de exemplares vendidos, o livro também conseguiu promover muita polêmica. Católicos, protestantes e estudiosos das religiões afirmam que se trata de uma afronta à figura histórica do Jesus de Nazaré. Críticos literários colocam que essa é apenas uma obra de ficção. Já o autor garante que as teorias presentes na história têm valor. O resultado disso é que Igrejas e teólogos estão se mobilizando e lançando novos livros que rebatem as idéias contidas em "O Código Da Vinci", e um autor feliz da vida por ver sua cria figurar há 56 semanas no topo da lista das ficções mais procuradas pelo público dos EUA. Isso tudo, claro, permeado por muita confusão na cabeça das pessoas comuns.


"É uma ficção e deve ser lido assim. O Jesus que aparece no livro nada tem a ver com a figura histórica de Jesus Cristo. O autor batizou o personagem dele com o mesmo nome claramente para gerar polêmica, simplesmente porque a discussão ajuda a vender os livros", começa a desvendar o mistério o professor de Teologia da Pontifícia Universidade Católica (PUC-SP), Fernando Altenmeyer. Contudo, segundo Dan Brown, o enredo está baseado em passagens verdadeiras da vida de Jesus, que a Igreja Católica fez questão de esconder. "Mais ou menos. O livro segue alguns momentos que, de fato, estão descritos, mas segue só o que interessa. Pula acontecimentos, mistura as coisas", rebate Altenmeyer.

Segundo a obra, a Igreja Católica teria suprimido 80 evangelhos primitivos por motivos políticos. Esses textos trariam grandes revelações. Entre elas, a de que Jesus era um homem comum, que casou e teve filhos com Maria Madalena. Mais que isso, aquele Jesus não teria sido o líder que aprendemos a conhecer. Esse papel seria cumprido por sua mulher, que comandou os apóstolos que celebravam, na verdade e por sua vez, a sabedoria e a sexualidade. A essa altura, a cabeça do leitor já deve estar fervilhando de questões: homem sem divindade? Casado e com filhos? Com uma mulher por vezes traduzida como prostituta? Seguidor e não líder? Tudo isso não contraria o que aprendemos?

Com sua voz serena, o professor Fernando Altenmeyer esclarece os dilemas. "A Igreja achou por bem selecionar os escritos. Seria impossível fazer uma Bíblia com 5 mil escritos", responde à primeira questão, referindo-se à real existência dos apócrifos citados por "O Código". Esses documentos foram encontrados depois de a Escritura Sagrada ficar pronta, mas são conhecidos. O Vaticano inclusive reconhece sua existência. Sobre a natureza do filho de Maria, ele diz que "está claro para a Igreja que Jesus é dotado de divindade. Essa afirmação foi aceita por seus seguidores desde os primórdios da Igreja". Isso significa que, historicamente, o homem Jesus de Nazaré existiu mesmo e que, para os cristãos, essa mesma figura era Deus feito homem.

A idéia do Cristo ter sido casado e ter tido filhos é antiga, já persegue a humanidade há tempos. Ela vem de uma necessidade de provar que Jesus era um homem como outro qualquer, sem poderes mágicos. O fato de ter deixado descendentes mostra uma vontade de encontrar, ainda hoje, um elo palpável com a divindade. Ao que o professor Fernando rebate: "Claro que ele era um homem comum. De carne e osso. Mas os Evangelhos mostram que ele não casou e nem teve filhos". Não porque tivesse algum problema, ou fosse contrário a isso. Mas parecia que Jesus estava tão envolvido com sua causa e acreditava tanto que o Juízo Final estava próximo, que o investimento de energia numa família não valia a pena. Conta a História que algo semelhante se passou com o líder da libertação da Índia, Mahatma Ghandi. Em determinado momento de sua luta contra os ingleses, Ghandi combinou com sua mulher que ela não mais seria sua esposa, mas sim sua irmã. "Pode parecer desprezo pela mulher, mas quem quer abraçar o mundo coloca a vida nessa causa. Dedica-se somente a ela. E foi o que aconteceu com Jesus", afirma Altenmeyer.

Em princípio, não haveria problema algum para a Igreja Católica admitir que Jesus teve mulher e filhos. Mas, alega-se, não há nenhum documento -- mesmo entre os apócrifos -- que confirme essa versão. Pelo contrário. De acordo com a Bíblia, Jesus teria feito o voto de Nazireus. Ele era o primeiro filho e o voto o colocava no papel de cuidador da família, já que, ao que tudo indica, seu pai teria morrido muito cedo. Os cabelos longos seriam uma prova dessa posição.
Tudo isso também derruba a idéia do envolvimento com Maria Madalena. Se Jesus cuidava da família e, mais ainda, se dedicava a um movimento, não faz sentido que tivesse uma companheira. É verdade que os "Evangelhos de Maria Madalena!" falam que o Cristo tinha um grande amor por Madalena e que a beijava mais que aos outros, "mas esse é um costume muito comum entre muitos povos, beijar o rosto de homens e mulheres como sinal de afeição", explica o professor de teologia. Ele continua: "segundo [Sigmund] Freud, Jesus era um não neurótico, ou seja, não tinha nenhum problema em tocar ou ser tocado".

Esse ponto torna-se delicado quando entendemos esse tocar com uma conotação sexual. E soa entranho pensar que o filho de Deus pudesse ter desejo. "Também não há problema algum em supor que Jesus tinha algum afã sexual. Ele era um homem. E não era castrado", coloca, sem constrangimentos, o entrevistado. E quanto ao fato de Maria Madalena ser prostituta? É verdade que essa descrição só aparece em algumas versões da Bíblia,ou seja, não se confirma. "O problema maior não é a ocupação dela, mas sim que há várias Marias e Madalenas na Bíblia. Qual é qual?", aponta Altenmeyer. Segundo o professor, a pecadora arrependida (e não necessariamente prostituta), a mulher que lava os pés de Jesus, a que está aos pés da Cruz e a que nota sua ressurreição são, no mais das vezes, descritas como a mesma. Todas são Maria Madalena. O que não está confirmado nos Evangelhos. Os escritos falam em Miriam, que é a palavra árabe para Maria, mas não especifica quem é quem. Se são as mesmas, ou se cada uma é uma -- fica a dúvida.
Se as polêmicas em torno de Jesus Cristo colocadas em "O Código Da Vinci" podem todas ser explicadas, então por que as Igrejas e os estudiosos estão se apressando em escrever e lançar livros desmentindo as teorias que aparecem no livro? "A instituição que se sentir lesada tem o direito de responder. Não sei se precisa tanto. Mas embora historicamente a figura dele esteja bem consolidada, talvez o povo, os fiéis, não o conheçam muito", responde o professor Fernando.
Se toda essa polêmica acendeu no leitor a vontade de conhecer o personagem ficcional de Dan Brown e de desvendar um pouco mais profundamente o personagem histórico para, no final ter uma opinião pessoal, Fernando Altenmeyer dá mais uma dica: "Leia â??O Código Da Vinciâ?? e depois confronte-o com o Evangelho de São Marcos". O professor de Teologia da PUC-SP garante que o leitor se tornará capaz de tirar as próprias conclusões. Agora, é só mergulhar.
O romance
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| A história começa em uma noite no Museu do Louvre, em Paris. |
A história começa em uma noite no Museu do Louvre, em Paris, onde Silas, um monge albino vestido com um manto, atira no estômago do curador Jacques Saunière. Silas é um membro numerário da ultra-conservadora seita Opus Dei da igreja católica. Ele trabalha para um homem que conhece apenas como o "mestre" (mais tarde ficamos sabendo que se trata de Sir Leigh Teabing, um bretão ultra-rico e obcecado em encontrar o Santo Graal). A Opus Dei, a igreja católica, e Sir Leigh Teabing fazem parte do grupo do mal no romance, são os bandidos da história.
Jacques Saunière é um especialista em adoração à deusa e é o grão-mestre do Priorado de Sião, uma organização secreta que esconde e protege o "Santo Graal" (das lendas arthurianas) e os manuscritos que provam que Maria Madalena era mulher de Jesus Cristo e juntos tiveram uma filha chamada Sarah. Na seqüência, Madalena e seus seguidores fugiram para a França e talvez até para a Inglaterra, evitando assim a perseguição que lhe foi imposta pelos apóstolos, especialmente por Pedro.
Jacques Saunière, baleado, só pensou em uma coisa antes de morrer no Louvre: passar em forma de enigmas e anagramas as informações secretas do Priorado de Sião para a sua neta Sophie Neveu, uma agente do Departamento de Criptologia da Polícia Judiciária francesa e especialista em decodificação.
De alguma maneira, Jacques Saunière consegue ficar despido, faz um círculo no chão e se posiciona dentro do círculo de forma semelhante ao desenho "O Homem Vitruviano", de Leonardo da Vinci. Saunière ainda conseguiu escrever com o seu próprio sangue e com tintas visíveis e invisíveis ao olho humano alguns símbolos e mensagens para a sua neta. Em uma dessas mensagens, pede a Sophie Neveu que encontre Robert Langdon, um professor de simbologia religiosa da universidade de Harvard que se encontra palestrando em Paris naqueles dias.
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| O desenho "O Homem Vitruviano", de Leonardo da Vinci. |
Juntos, Sophie e Robert, conseguem resolver o assassinato e posteriormente o mistério do Santo Graal. Nesse romance, o Santo Graal é Maria Madalena, mais especificamente o seu útero, e seus restos mortais encontram-se sepultados na pequena pirâmide, sob a pirâmide invertida, dentro do Museu do Louvre.
Jacques Saunière, Sophie Neveu e Robert Langdon são os mocinhos do romance, a turma boa da história.
Quase todas as colocações contrárias ao cristianismo, à história e às artes, conforme conhecemos hoje, nos são passadas nessa saga através das bocas dos dois personagens mais cultos e estudiosos, a saber: Professor Robert Langdon e Sir Leigh Teabing.
Resumindo, o romance nos leva por toda uma noite e um dia a pontos turísticos de Paris e de Londres só para tentar nos ensinar que a igreja cristã (especialmente a católica) tem reprimido o conhecimento acerca do casamento de Jesus com Maria Madalena e que isso, caso fosse descoberto, destruiria o cristianismo (pp. 261-267).
O que incomoda é o cinismo do autor em relatar na página preliminar algumas falsas considerações como se fossem fatos. Brown proclama como se fosse verdade: "Todas as descrições de obras de arte, arquitetura, documentos e rituais secretos neste romance correspondem rigorosamente à realidade". Então, meu prezado Dan Brown, passarei deste ponto em diante a checar o seu romance para ter a certeza se o mesmo corresponde "rigorosamente à realidade".
Dan Brown: historicamente desautorizado
a) No romance: Pierre Plantard, o Priorado de Sião e os dossiês secretos são autênticos (página preliminar, pp. 221 e 345-346):
Segundo o romance: "O Priorado de Sião – sociedade secreta européia fundada em 1099 – existe de fato. Em 1975, a Biblioteca Nacional de Paris descobriu pergaminhos conhecidos como Os Dossiês Secretos, que identificavam inúmeros membros do Priorado de Sião, inclusive Sir Isaac Newton, Botticelli, Victor Hugo e Leonardo da Vinci" (página preliminar).
Ops! O autor confundiu o "Priorado de Sião" com a "Ordem ou Abadia de Sião". O "Priorado de Sião" é um movimento religioso mais recente, que surgiu após a II Guerra Mundial. Sua existência foi anunciada em 1962 após ter sido formalmente estabelecido em 1956. O "Priorado de Sião" não tem qualquer conexão com a "Ordem ou Abadia de Sião" da Idade Média, como o livro reivindicou ser um "fato" na sua página preliminar. O grupo da Abadia foi dissolvido pelo rei Luís XIII da França em 1619.
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| Pierre Plantard confessou à justiça francesa em 1992 ter sido o criador de todas as peças do Priorado de Sião com o intuito de pô-lo no trono da França como um suposto descendente merovíngeo e de Jesus Cristo. |
Mais um erro: Dan Brown acredita na autenticidade dos "Dossiês Secretos" que contêm os nomes de todos os supostos grão-mestres do priorado e se encontram arquivados na Biblioteca Nacional de Paris, quando, na verdade, não passam de uma fraude. O fato que Brown não menciona é que o líder do priorado, Pierre Plantard (1920-2000), conhecido como um mascate, anti-semita, católico e fraudulento foi quem criou os falsos "Dossiês Secretos" e quem os depositou na Biblioteca. Os ditos "pergaminhos conhecidos como os Dossiês Secretos" foram uma invenção de Pierre Plantard, conforme desmascarado no programa The History of a Mystery (A História de um Mistério) levado ao ar pela Time Watch BBC em 1996.
E mais, o próprio Pierre Plantard confessou à justiça francesa em 1992 ter sido o criador de todas as peças do Priorado de Sião com o intuito de pô-lo no trono da França como um suposto descendente merovíngeo e de Jesus Cristo. Há na França três locais onde qualquer pessoa pode obter documentação judicial e criminal sobre Pierre Plantard, a saber: a Prefeitura de Polícia de Paris, a Sub-Prefeitura de St. Julien em Geneveis e o Tribunal de Grande Instância de Thonon les Bains.
Então o Priorado de Sião, do qual o autor nos transmite a imagem de ser uma sociedade secreta séria, não passa de uma farsa armada pelo senhor Pierre Plantard.
b) "Os Manuscritos do Mar Morto foram encontrados na década de 50" (página 251):
Brown errou na década! Os manuscritos do Mar Morto que confirmam a autenticidade de vários textos do Velho Testamento foram descobertos a partir da segunda metade da década de 40, em onze cavernas na região de Qumram.
c) "Mais de 80 evangelhos foram estudados para compor o Novo Testamento" (página 248):
Puxa! O autor é ruim em números! Dos 52 textos gnósticos e filosóficos descobertos em Nag Hammadi, no Alto Egito, apenas cinco eram evangelhos, a saber: Verdade, Tomé, Filipe, Egípcios e Maria.
E mais: os evangelhos de Tomé, Filipe e Maria não foram escritos pelos respectivos personagens bíblicos. Foram escritos mais de um século após a morte de Cristo e só Deus sabe quem eram esses autores que se passaram por Tomé, Felipe e Maria. O próprio apóstolo Paulo nos alertou sobre autores fraudulentos: "epístolas (cartas) supostamente vindas de nós" (2 Tessalonicenses 2.1-2).
d) "Jesus só se tornou divino a partir do Concílio de Nicéia", em 325 d.C., convocado pelo imperador romano Constantino (p.248-252):
Com essa afirmação, Brown revela o seu profundo desconhecimento histórico. Na verdade o Concílio de Nicéia apenas reafirmou a divindade de Jesus Cristo, que já era aceita em textos e testemunhos pessoais desde o século I. Vejamos:
O testemunho do próprio Jesus Cristo: "Eu e o Pai somos um" (João 10.30).
O testemunho dos evangelhos e epístolas: "No princípio era o Verbo, e o Verbo estava com Deus, e o Verbo era Deus [...] E o Verbo se fez carne e habitou entre nós, cheio de graça e de verdade, e vimos a sua glória, glória como do unigênito do Pai" (João 1.1 e 14). Dos israelitas "são os patriarcas, e também deles descende o Cristo, segundo a carne, o qual é sobre todos, Deus bendito para todo o sempre. Amém!" (Romanos 9.5). "Mas acerca do Filho: O teu trono, ó Deus, é para todo o sempre; e: Cetro de eqüidade é o cetro do seu reino" (Hebreus 1.8).
O testemunho de vida e morte dos apóstolos: todos os apóstolos de Jesus foram presos e/ou mortos sustentando a verdade de que Jesus Cristo era o Messias e ressuscitou. Caro leitor, ninguém sustenta uma mentira sabendo que aquela mentira vai condená-lo à morte. Os apóstolos morreram pelo que acreditavam ser verdade.
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| Flávio Josefo conhecia algo sobre Jesus, Suas reivindicações e Seus seguidores. |
O testemunho do historiador judeu Flávio Josefo, que viveu algumas décadas após a crucificação de Jesus: no Testimonium Flavianum (Ant. 18:63-64) Jesus é chamado de "um homem sábio". Essa afirmação é seguida por uma breve explicação de que Jesus foi "aquele que realizou feitos surpreendentes"; que era um professor e o Messias que foi condenado por Pilatos para ser crucificado e ao terceiro dia aparentemente recuperou a sua vida; e que "a tribo de cristãos, como seus seguidores são chamados, até o presente momento não desapareceram" (18:63-64). Parece claro que Josefo pelo menos conhecia algo sobre Jesus, Suas reivindicações e Seus seguidores. Ele não era um seguidor de Jesus, mas apenas relatou o que tinha ouvido.
O testemunho dos pais da igreja: bem antes do Concílio de Nicéia, muitos foram aqueles que morreram confessando que Jesus Cristo é Deus: Policarpo de Esmirna era discípulo do apóstolo João, enviou carta à igreja de Filipos entre 112 e 118 e foi martirizado em 160 d.C.[2] Justino, o Mártir, nasceu em Israel, ficou impressionado com a capacidade dos cristãos de enfrentarem a morte de forma heróica, converteu-se ao cristianismo e testemunhou acerca de Jesus até o seu martírio em 165 d.C.[3] Vários outros líderes da igreja de Cristo consideraram Jesus divino muito antes do Concílio de Nicéia, a saber: Inácio (105 d.C.), Clemente (150 d.C.), Irineu (180 d.C.), Tertuliano (200 d.C.), Orígenes (235 d.C.), Novatian (235 d.C.), Cipriano (250 d.C.), entre outros.[4]
O testemunho dos cristãos que passavam pelo Panteão, em Roma: esse templo aos deuses foi concluído em 126 d.C. (cerca de dois séculos antes do Concílio de Nicéia). Cristãos eram levados para o Panteão e aqueles que não se curvavam diante da estátua de César e não confessavam César como "Senhor", eram mortos. Não foram poucos os cristãos que confessaram que só Jesus Cristo é o Senhor e preferiram morrer em vez de negar a Sua divindade.
e) No Concílio de Nicéia, o resultado da votação a favor da divindade de Jesus Cristo foi "meio apertado" (página 250):
Que conversa mole de Brown! O resultado foi uma lavagem a favor da divindade total de Jesus! Dos 318 participantes, 16 se abstiveram de assinar o "Credo de Nicéia". O resultado: 300 votos a favor da divindade total e irrestrita de Cristo (posição já existente na igreja cristã) e 2 votos a favor da divindade parcial e inferior de Cristo (posição defendida pelo padre Ário).
f) "Os descendentes de Cristo geraram a dinastia que hoje é conhecida como merovíngia e fundaram Paris" (página 274):
Nossa! Que besteira! Paris não foi fundada pelos supostos descendentes de Jesus Cristo, ela já existia séculos antes do nascimento de Jesus Cristo! Em meados do século III a.C., a parisii, uma tribo gaulesa, colonizou a ilha Seine Île de la Cite e fundou a colônia de Lutuhezi, que depois também passou a ser chamada de Lutetia Parisorum. Os merovíngeos apenas tornaram Paris a capital da França em 508 d.C.
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| Cada igreja redonda construída pelos templários na Europa é, na verdade, uma referência à Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. |
g) A "Temple Church, em Londres, é redonda em honra ao sol" (pp. 359 e 364):
Ao associar a forma redonda da Temple Church com o deus pagão do sol, Brown comete um estrondoso erro arquitetônico. Cada igreja redonda construída pelos templários na Europa é, na verdade, uma referência à Igreja do Santo Sepulcro, em Jerusalém. A Temple Church consagrada em 1185 não foge a essa regra. A redonda Igreja do Santo Sepulcro contém um túmulo que os católicos acreditam ter sido o local onde Jesus foi sepultado. Ela era considerada o lugar mais santo na época das cruzadas.[5]
h) "Durante 300 anos de caça às bruxas, a igreja queimou na fogueira a quantidade impressionante de cinco milhões de mulheres" (página 135):
Que hipérbole! Brown está se baseando em pesquisas desatualizadas e desacreditadas. Na verdade, na melhor estimativa, foram mortos 30 a 50 mil homens e mulheres, acusados de feitiçaria durante quatro séculos (1400 a 1800). Calcula-se que 25% dessas execuções eram de homens. Sem dúvida, um número muito significante, mas nada em comparação com 6 milhões de judeus mortos durante o Holocausto, nem com os 50 milhões eliminados pelo regime de Mao Tse Tung e muito menos com os 60 milhões dos expurgos de Josef Stalin.
Bem, quem acreditar nas colocações históricas de Dan Brown como verdadeiras, corre um sério risco de ficar burro.
Alguns outros erros históricos foram cometidos no livro, mas não irei salientá-los. Acredito que os que foram relatados já são suficientes para afirmar que os fatos históricos não estão do lado de Dan Brown e que esse romancista não passa de um sofrível professor de história.
Dan Brown: artisticamente desautorizado
Leonardo da Vinci (1452-1519) viveu durante a Renascença, mas foi um homem à frente de sua época. Foi pintor, inventor, visionário, matemático, filósofo e engenheiro. Dan Brown acrescenta a essa lista que Leonardo era também "homossexual" (pp.54 e 130). As biografias de Leonardo salientam que, em abril de 1476, ele foi anonimamente acusado de sodomia com o assistente de pintura Saltarelli (conhecido homossexual) e que em 7 de julho do mesmo ano o caso foi arquivado por falta de provas.[6, 7] Portanto, não se pode afirmar que era ou não homossexual. Do que temos certeza mesmo são os erros grosseiros cometidos por Brown quando analisou algumas pinturas de Leonardo tentando nos fazer crer que há um código oculto nelas.
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| A "Virgem dos Rochedos". |
a) A Madona das Rochas (também conhecida como "A Virgem dos Rochedos"):
Quando a personagem Sophie Neveu retira esse quadro dos cabos de sustentação e o põe em sua frente, o autor narra: "Com um metro e cinqüenta, a tela quase escondia o corpo da moça" (p.143). Bem, basta entrar no site oficial do Museu do Louvre para identificarmos logo de cara que o quadro mede 199 x 122 cm e não "um metro e cinqüenta".[8]
Na seqüência, Dan descreve que foram "as freiras" da Confraria da Imaculada Conceição que encomendaram a pintura para Leonardo (p.148). Na verdade, a encomenda foi feita pelos padres da Confraria, já que não existia "freira" nessa instituição.
Em seguida, Brown relata: "A tela mostrava a Virgem Maria de túnica azul, sentada com o braço em torno de um bebê, presumivelmente o Menino Jesus. Diante dela se encontrava sentado Uriel, também com um menininho, presumivelmente o pequeno João Batista. O estranho, porém, era que, em vez da cena que costumeiramente se vê, de Jesus abençoando João Batista, era João que estava abençoando Jesus... E Jesus mostrava-se submisso à sua autoridade!" (p.148). O autor inverteu a identidade de João Batista e de Jesus Cristo. Na verdade, Maria está com o braço em torno do bebê João Batista. Já o bebê Jesus Cristo está à esquerda de Maria, abençoando João Batista.[9]
Logo após, o autor começa a ver o invisível, e diz: "O mais preocupante, porém, era que Maria estava com uma das mãos sobre a cabeça do pequeno João e em um gesto decididamente ameaçador – os dedos pareciam garras de águia agarrando uma cabeça invisível. Por fim, a imagem mais amedrontadora e clara: logo abaixo dos dedos curvos de Maria, Uriel fazia com a mão o gesto de quem corta uma cabeça – como se cortasse o pescoço da cabeça invisível que a mão de Maria, em forma de garra, segurava" (pp. 148-149).
Se você estudar o que os historiadores das artes descrevem sobre esse quadro, vai descobrir que não existe nada do que é narrado por Dan Brown. Essa conversa da "cabeça invisível" de João Batista é mera esquizofrenia artística do autor do romance. O que sabemos de fato é que a mão esquerda de Maria sobre a cabeça de Jesus (e não de João) simboliza proteção. O anjo Uriel seria o "anjo da guarda de João Batista" e aponta em direção a ele.
O autor acertou quando disse que há duas versões de "A Virgem dos Rochedos" (até que enfim acertou uma), mas errou logo em seguida quando tentou explicar o motivo dos dois quadros: "Da Vinci acabou convencendo a confraria a ficar com uma segunda pintura, versão "açucarada" da Madona das Rochas, em que todos se encontravam em posições mais ortodoxas" (p.149). Na verdade, a primeira versão produzida durante os anos de 1483-1486 encontra-se hoje no Museu do Louvre, já a segunda, feita cerca de 20 anos mais tarde (1503-1506) encontra-se na National Gallery, em Londres. Mas, por que duas versões? "Ocorreu uma complicada e amarga discordância em relação ao pagamento: o artista ameaçou vender a obra a um amante de arte que lhe oferecera obviamente muito mais que aquilo que a Irmandade estava preparada para pagar. Esta disputa foi provavelmente a razão de uma segunda versão da Virgem dos Rochedos – a versão que é possível observar presentemente em Londres e que na verdade decorou a capela dos monges em S. Francesco Grande em Milão no século XVI". A versão mais antiga foi provavelmente adquirida com rapidez pelo amante de arte, possivelmente Ludovico Sforza".[10] Posteriormente, Sforza ofereceu o quadro ao Rei da França ou ao Imperador Maximiliano.
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| A pintura foi intitulada ‘Monna’ Lisa, sendo Monna uma contração da Madonna (mia donna, minha senhora). |
b) A Mona Lisa:
Dan Brown não deixou incólume a mais famosa e mais visitada pintura do mundo. Conhecida na França como La Joconde, na Itália, como La Gioconda, e em todos os demais lugares como Mona Lisa, é o quadro número 779 do Louvre.
Quando o professor Robert Langdon, personagem criado por Dan Brown, é questionado se "é verdade que a Mona Lisa é o retrato do próprio Da Vinci, só que travestido?", responde: "É bem possível [...] Mona Lisa não é homem, nem mulher. Traz uma mensagem sutil de androginia. É uma fusão de ambos" (p.130).
Na seqüência, Langdon ensina que as palavras "Mona Lisa" são uma junção do deus egípcio Amon com a deusa egípcia Ísis, "cujo pictograma antigo era L’ISA [...] Amon L’isa" (p.131). E conclui suas considerações com a afirmação: "E esse, meus amigos, é o segredo de Da Vinci, o motivo do sorriso zombeteiro da Mona Lisa" (p.131).
Bem, vamos por etapas, pois é muito devaneio para uma pessoa só.
Primeiro, quem é a modelo na pintura? Algumas hipóteses foram levantadas, mas com certeza, não é Leonardo da Vinci travestido. A alegação mais consistente é de que seja Lisa Gherardim.
"O registro do Battistero di San Giovanni confirma que ela nasceu em Florença, numa terça-feira, em 15 de junho de 1479. [...] Aos 16 anos, Lisa casou-se com um homem dezenove anos mais velho e duas vezes viúvo: Francesco di Bartolomeo di Zanobi Del Giocondo, um dignitário florentino. [...] Na época em que Leonardo começou a pintá-la, ela já tinha tido três filhos, e um deles, uma menina, havia morrido em 1499. [...] E até onde se pode verificar, Lisa não fez nada de excepcional durante sua vida inteira, exceto sentar-se imóvel enquanto Leonardo a desenhava".[11]
Segundo, de onde vem o nome Mona Lisa? Com certeza não é a contração de nomes de divindades egípcias. "A pintura foi intitulada ‘Monna’ Lisa, sendo Monna uma contração da Madonna (mia donna, minha senhora). A grafia "Mona" é incorreta, de origem incerta, mas é a que ficou estabelecida na Inglaterra".[12]
Terceiro, por que o sorriso comedido da Mona Lisa? Não tem nada de "sorriso zombeteiro". Qualquer estudioso ou curioso sobre os quadros de Leonardo vai perceber que aquele sorriso discreto da Mona Lisa não é exclusivo dela. Leonardo pintou outros quadros onde os modelos exibem sorrisos semelhantes, a saber: "São João Batista" (1513-1516); "João Batista com atributos de Baco" (1513-1516); "A Virgem com o menino de Santa Ana" (1510); "Dama com Arminho" (1483-1490). De acordo com Donald Sasson, pesquisador e escritor sobre a Mona Lisa, esse tipo de sorriso discreto fazia parte da etiqueta dos quadros do Renascimento: "Risos – em oposição a sorrisos – são raros nos quadros do Renascimento, e nunca são usados quando a aristocracia e as classes mais altas são representadas. Mona Lisa não ri; ela mostra comedimento e decoro. Um sorriso pode ser considerado como um riso atenuado, como a palavra francesa, sou-rire – "sub-riso" – e a raiz etimológica do latim, subridere, sugerem. No mundo altamente codificado da vida da corte italiana do século XV, sorrisos não são deixados por conta da iniciativa pessoal. Havia numerosos livros à disposição daqueles que desejassem ser introduzidos no código apropriado de comportamento.[13]
Já Giorgio Vasari, biógrafo de artistas e comentarista sobre a Mona Lisa, citou em 1550: "músicos, palhaços e outros artistas ficaram entretendo a modelo, enquanto Leonardo a pintava".[14] Vasari alega ser esse o motivo do discreto sorriso.
O fato é que o sorriso chamava pouca atenção e ninguém o considerava misterioso, mas a partir do século XIX várias teorias conspiratórias surgiram e o marketing do sorriso da Mona Lisa cresceu.
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| "A Última Ceia" - essa pintura mural de 460 X 880cm, com técnica de óleo e têmpera sobre gesso, na parede do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão. |
c) A Última Ceia:
Essa pintura mural de 460 X 880 cm, com técnica de óleo e têmpera sobre gesso, na parede do refeitório do Convento de Santa Maria delle Grazie, em Milão, é uma das obras-primas de Leonardo da Vinci. Hoje bastante deteriorada, está em processo de restauração.
E lá vai Dan Brown outra vez: na página 252, o autor chama "A Última Ceia" de "afresco" quatro vezes. Brown desconhece que o artista, quando optou por pintá-la, renunciara à técnica conhecida por "afresco" e escolheu a técnica de óleo e têmpera sobre gesso.[15]
Na seqüência, o "culto" Sir Leigh Teabing insinua que na pintura deveria haver, mas não há, um cálice de vinho sobre a mesa. Ele conclui que a ausência do cálice demonstra que o Santo Graal não é o cálice: "O Santo Graal não é um objeto. Na verdade... trata-se de uma pessoa" (p.253).
Tudo bem, vamos explicar porque não existe o cálice na "A Última Ceia", já que os personagens do livro de Dan Brown desconhecem a história dessa pintura. Os três primeiros evangelhos (Mateus, Marcos e Lucas), relatam que Jesus após cear, tomou um cálice e tendo dado graças, o deu a Seus discípulos. Já o texto de João 13.21-24, apenas revela Jesus indicando que entre eles há um traidor e não mostra Cristo ceando ou bebendo com os discípulos. Foi baseado nesse texto joanino que Leonardo da Vinci pintou esse quadro e, por esse motivo, não aparece o cálice. A ênfase tanto do texto bíblico quanto da pintura não é no pão e no vinho, mas, sim, na surpresa dos apóstolos ao tomarem conhecimento de que entre eles havia um traidor.
Na seqüência, Teabing fala à deslumbrada Sophie que a pessoa à direita de Jesus é uma mulher – "Maria Madalena!" (p.260). E mais: que Pedro, com sua mão esquerda próxima ao pescoço de Maria Madalena, é um sinal de ameaça caso ela passe a ser a líder da igreja (p.265).
Puxa! Dan Brown sofre de alucinações. Primeiro: todos os esboços dessa pintura mural revelam que nela não existe mulher alguma e que a pessoa ao lado direito de Jesus Cristo é João, o amado. Se não for João, onde este estaria na pintura? Segundo: era típico do Renascimento retratar as pessoas supostamente "mais puras e mais santas" com um aspecto efeminado, motivo porque Leonardo o retratou assim (apesar de sabermos que João, o amado, não tinha nada de tão santo assim). Terceiro: se João parece uma mulher, o que dizer de Filipe (o terceiro à esquerda de Jesus)? Quarto: o texto de João 13.24 diz que Simão Pedro fez um sinal a João, "dizendo-lhe: Pergunta a quem ele se refere". Essa falácia de Pedro ameaçando uma suposta Maria Madalena não tem nenhum fundamento.
As considerações de Brown sobre as pinturas de Leonardo são um desprezo solene ao conhecimento dos fatos.
Bem, meu conselho é que se algum dia Dan Brown quiser ser seu professor de artes, dê um pinote e saia correndo para não se tornar inculto.
Brown comete ainda outros erros artísticos, mas os relatados já são suficientes.
O hilariante é que nos agradecimentos do livro, Brown revela a profissão da sua esposa: "E minha esposa, Blythe – historiadora de arte, pintora, editora de primeira linha e, sem dúvida, a mulher mais incrivelmente talentosa que jamais conheci". Mesmo?? Pare de me fazer cócegas, Dan Brown!.








